"Eu não sou uma sonhadora. Só devaneio para alcançar a realidade!" C.Lispector

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

A Moça

A moça canta
A música encanta
A mosca zomba
Do voar da pomba
O céu cria
E a nuvem vira
O gato mia
Enquanto a vaca mugia
O dia cai
E a noite espia
A moça que gira,
No girar da vida.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Ela se foi primeiro. Em primeiro de Janeiro.

A saudade idealizava tudo, até a raiva já não era mais raiva. O ser que conhecera não era mais o que foi, e sim o que queria que fosse. A mágoa que guardou durante tanto tempo em seus olhos virou lágrimas e despedaçaram-se no chão. Seu coração, pobrezinho, só pulsava porque o corpo queria, ela já nem mais o sentia. Mas estava bem, estava firme. E era assim que queria morrer, com lembranças boas (e não importa se ela inventara boa parte delas), sem nenhum receio e mais nenhuma mágoa ela fechava seus olhos. De pura solidão viera ao mundo, e assim mesmo o deixaria! Sua vida por fim se findava e ela chegou à conclusão que sua passagem foi um vão, não deixara e nem levara nada, só a nostalgia do que não viveu e a solidão apaziguadora que levava consigo para o tumulo junto ao peito, igual a corrente enferrujada que levava ao pescoço, ganhara quando menina e até o fim a tinha. O primeiro dia do ano se tornou o último pra ela. Uma certa mão segurava a sua sem ela perceber... Ela não sabia, mas não estava só.

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O mais triste foi ver o corpo gélido da amada em seus braços enveludados pelo terno fúnebre. Até agora não havia soltado a mão da mulher. Nunca uma música tocou tão fundo a alma dos de luto, luto pela morta, que dentro do caixão fechava a porta. A cova ao lado da que mais adiante será a dele. A terra cai sobre a falecida, e o barulho da pá na terra, da terra na madeira deixa o viúvo à beira da loucura. Só não se jogava junto à cova, pois mãos segurando seu braço o empediam. Tudo em seu corpo tremia, em pensar que nunca mais a teria... Nunca mais poderia se desculpar, "Será que ela guardava mágoas?" Ele ficava pensar. O primeiro dia do ano também se tornou o último pra ele. Aconteceu o que ele mais temia, e ela sempre o previra. Sempre dizia: "Nunca chores por mim, meu bem. A vida é mesmo assim: Um eterno e inevitável fim..."

terça-feira, 16 de outubro de 2007

O Parasita.

Ele não tem uma vida própria. Se perguntares o que é dele, ele não saberá lhe responder. Vive em prol de desgraçar e parasitar a vida alheia. Parece uma bactéria que quer consumir seus restos antes de você morrer. Quer apodrecer sua carne, sua vida. Ronda seus olhos te espreitando, enquanto você está por aí sonhando. Quer te envenenar. As palavras dele em seu ouvido caem na sua corrente sangüinea como um líquido mortal. Se mantenha imune, ponha uma armadura, acorde seu exército. Vá em frente, você conseguirá nadar em um lago de sanguessugas e sairá perfeitamente bem, com todo seu sangue e seus sonhos intácteis. Não deixe que ninguém parasite em você, assim não conseguirão sua carnificina tão desejada.