A saudade idealizava tudo, até a raiva já não era mais raiva. O ser que conhecera não era mais o que foi, e sim o que queria que fosse. A mágoa que guardou durante tanto tempo em seus olhos virou lágrimas e despedaçaram-se no chão. Seu coração, pobrezinho, só pulsava porque o corpo queria, ela já nem mais o sentia. Mas estava bem, estava firme. E era assim que queria morrer, com lembranças boas (e não importa se ela inventara boa parte delas), sem nenhum receio e mais nenhuma mágoa ela fechava seus olhos. De pura solidão viera ao mundo, e assim mesmo o deixaria! Sua vida por fim se findava e ela chegou à conclusão que sua passagem foi um vão, não deixara e nem levara nada, só a nostalgia do que não viveu e a solidão apaziguadora que levava consigo para o tumulo junto ao peito, igual a corrente enferrujada que levava ao pescoço, ganhara quando menina e até o fim a tinha. O primeiro dia do ano se tornou o último pra ela. Uma certa mão segurava a sua sem ela perceber... Ela não sabia, mas não estava só.
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O mais triste foi ver o corpo gélido da amada em seus braços enveludados pelo terno fúnebre. Até agora não havia soltado a mão da mulher. Nunca uma música tocou tão fundo a alma dos de luto, luto pela morta, que dentro do caixão fechava a porta. A cova ao lado da que mais adiante será a dele. A terra cai sobre a falecida, e o barulho da pá na terra, da terra na madeira deixa o viúvo à beira da loucura. Só não se jogava junto à cova, pois mãos segurando seu braço o empediam. Tudo em seu corpo tremia, em pensar que nunca mais a teria... Nunca mais poderia se desculpar, "Será que ela guardava mágoas?" Ele ficava pensar. O primeiro dia do ano também se tornou o último pra ele. Aconteceu o que ele mais temia, e ela sempre o previra. Sempre dizia: "Nunca chores por mim, meu bem. A vida é mesmo assim: Um eterno e inevitável fim..."