"Eu não sou uma sonhadora. Só devaneio para alcançar a realidade!" C.Lispector

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

.a venda.


A menina, com uma venda nos olhos, caminhava sem saber qual rumo tomar.
Queria se sentir livre, livre para voar.
Mas toda vez que pulava era o chão que ela sentia tocar.
Foi andando e andando, até que de repente encontrou uma porta. Queria tirar a venda, mas não! Iria ser forte, o que fosse achar seria uma surpresa, e ela amava surpresas.
Girou a maçaneta e sentiu o assoalho de madeira ranger. Sentiu estar em um filme de suspense,
queria tirar a venda.
Mas sabia que se assim o fizesse, acabaria com todo o encanto e seu coração voltaria a bater normalmente.
Ela não queria acabar com a emoção e descobrir que a casa de madeira na verdade era uma casa normal, ela queria que aquela adrenalina continuasse bombeando seu coração mais forte, ela degustava aquela adrenalina que lhe fazia salivar a boca.
Ela foi se esquivando com as mãos para a frente afim de se proteger.
Sem saber ela caminhava para o seu próprio fim, cegada pela vontade de não ve-lo como ele realmente era. Queria inventar um fim dela, mas não seria como um final de novela. E disso ela não sabia.
De repente, entrou em pânico ouvindo o grunhido de um corvo.
'Meu Deus' ela pensou. 'Onde estou, pra onde vou?' - Então sem pensar duas vezes ela tirou a venda dos olhos!
Viu aquele corvo vindo em sua direção com toda ferocidade, frio, calculista... seus sentidos paralisaram.

E a partir daquele dia, o que ela viu foi só escuridão...
[O corvo vendou seus olhos, a venda comeu seu coração.]


.
[aí eu me perguntei até onde nossa fantasia pode nos levar, e o que pode ela fazer da gente, ou com a gente.]

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

ela está sorrindo
-diziam
de onde virá tanta felicidade?
-pensavam

ela está sozinha
-pensavam
de onde será que vem tanta bondade?
-diziam

ela está caindo
-diziam
será que ela sabe?
-pensavam

ela está morrendo
-pensavam
mas parece tão a vontade!
-diziam

ela esta forte
-diziam
mas é pura fragilidade
-pensavam

ela está a beira da morte
-pensavam
mas é pura vida colorida!
-diziam

que triste fatalidade.
-concordavam.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

-.-

Entro no banheiro.
Tiro minhas roupas como quem quer tirar o diabo do corpo.
Abro o chuveiro e sinto a água gelada percorrer todo o meu corpo.
Choro.
Choro e rezo para que meu rosto não saiba distinguir a água salgada que sai dos meu olhos da água doce que cai do chuveiro.
Me ensabôo e esfrego a esponja no meu corpo como se quisesse tirar dele as marcas do meu passado e as sujeiras do meu presente!
Leio as embalagens dos shampoos e condicionadores tentando ali encontrar alguma pista do meu destino, do meu próximo dia.
Me enxáguo implorando pela ultima vez que as águas levem junto para o ralo todas as minhas tristezas e incertezas.
Fecho o chuveiro, me enrolo na toalha, me enxugo, enxugo meu olhos e olho no espelho.
Por fim, não saio com a alma lavada (como eu tanto queria), e sim com a alma seca, como um rio que seca e nunca mais recupera sua umidez.

Assim como ele eu perdi minha água interior, que me regava a alma.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Desfaleço,
Pois não mereço
Tal desprezo
Que recebo.

Cambaleio,
No seu enleio.
Fico no meio
Do meu receio.

Eu duvido
Do meu ouvido
Que olvida
A minha vida.

Minha ânsia
Sinto à distância
Na ganância.
De sua “importância”

Minha mente
Fica indiferente
Aos meus descrentes
Sentimentos impotentes.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Necromante*

Eu como uma necromante,
Quero te tirar de baixo da terra!
Quero te fazer de novo andante
Quero você na minha quimera.

Eu não agüento não mais te sentir
Eu não aceito a sua ausência
Sem você eu também ei de partir.
Oh Deus, escute minha fé de clemência.

Quando te vi sem respirar
Engoli em seco, mansamente.
Meu coração fez menção de parar.
Cena que gravou-se em minha mente.

De pensar em você sinto arrepios
Vem-me um aperto no coração agonizante.
Ah, só mais um ingrediente, alguns fios.
E você voltará para a Terra...

Levante!



[*Necromante = pessoa que pratica a necromancia, pessoa que invoca os mortos]

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Meus olhos ficam a gritar o que minha boca não pode dizer, eles ficam a sonhar com tudo que eu queria fazer. Se perdem a vagar pelas imagens do mundo querendo que eu faça a minha própria imagem de vida. Meu grito contido da para neles ser visto, e eles ficam as vezes tão brilhantes que parecem lacrimejar.
Meu olhar se perdeu na Lua, mas não perde nenhum Luar.
Ele virou há muito o refúgio do meu grito contido, querendo gritar ao mundo tudo o que eu penso, tudo o que eu sinto!

Mas quando me dão a oportunidade de gritar minha voz se esvai, meus olhos se fecham e meus pensamentos paralisam. Esqueço tudo que há em mim. Tudo que quer sair de mim. E quando o tempo que eu tinha para gritar acaba, em mim volta a sede pelo desabafo, pelo grito amarrado na garganta que escorre pelos olhos!
E tudo o que resta são meus olhos a olhar, a implorar, a em silêncio gritar.

E dizem que os olhos são a janela da alma...
Acho que eu nunca acreditei tanto nisso quanto agora.