"Eu não sou uma sonhadora. Só devaneio para alcançar a realidade!" C.Lispector

domingo, 14 de junho de 2009

Pára, não vem com essa mão na minha, não traga esse cheiro tão familiar para o interior de minhas narinas, que por um lapso involuntário e inexplicável é transportado direto ao meu coração, fazendo-o sufocar nesse insuportável perfume de tarde nublada que eu tanto amo.
Me solta, não me puxe de volta para a cama, para os sonhos que ficaram perdidos no lençol.
Se tudo é mentira, se amanhã a cama vai estar arrumada e vazia, não me olhe, sua feição me causa azia. Só a noite à meia luz que consegui encará-la, que ela não fez diferença alguma ao interior do meu ser.
Cansa me doar inteiramente, e não receber em troca nem ao menos uma esmola por boa ação ter feito, esgota. Nenhuma recompensa a curto prazo [nem a longo, a longo prazo é tudo mentira, tudo se desfaz e se perde no meio do percurso] e eu me perco diariamente nos cursos das minhas idéias voadoras regadas pelos rios dos meus sonhos.
elas desaguam num mar morto de vontades, salobro de suor, pobre de bondades.
e eu desaguo junto, querendo criar brânquias para nunca mais ter que voltar à superfície.



afogo-me no mar. no mar que criei para você se banhar.
banho-me no mar. no mar que criei para lhe afogar.

segunda-feira, 1 de junho de 2009



Ela olhava de cima do terraço do mais alto prédio que conseguiu achar, e de lá percebeu o quão pequeno é o ser humano. Que humilhante, subir tão alto pra ver a enorme pequenez do seu próprio ser. A partir desse momento ela sentiu todos aqueles sentimentos de revolta que sentimos quando percebemos que não fazemos a menor diferença diante da imensidão do mundo, queria se fazer ser notada, ser vista e não somente olhada.
Mas chovia...
e a chuva cegava tudo aos olhos alheios. Parecia que só os dela enxergavam mais nitidamente em dias assim. Dias frios e chuvosos, nos quais ela conseguia ver a própria alma refletida nas gotas cristalinas à cair. Quem sabe em outra vida tenha sido chuva [ou então tormenta, tempestade.] Ela começou a abrir os braços o máximo que podia, e mais uma vez percebeu que não era nada, que limitação somos nós. Lembrou das pessoas que conheceu, da família com a qual viveu, das garotas e garotos que namorou, e pensou se faria diferença ou se teria acrescentado algo na vida de algum deles. Pois ela sabia que eles estavam ali junto dela, todos eles ,formando cada pedacinho do seu ser. Como ela costumava dizer: 'minha alma é um retalho de pessoas'.
E ela queria sentir o mundo, foi para a beirada do telhado... ali não havia nada prendendo-a, nenhuma rede de proteção ou barras. Quem sabe sentiria se se jogasse? Se desafiasse as leis da gravidade?
Ela respirou aquele ar frio e gélido, sentindo as gotas molharem seu rosto tão insignificante (ela pensou), tão sozinha (ela se viu.)
Esticou a perna, deu uma rodopiada de bailarina [movimento que trazia da infância, das inúmeras aulas de ballet que havia tido]
Mas deu meia volta e se sentou...
Sabia que era pequena, mas ali, depois de sentir aquele turbilhão de sentimentos...
Ela se sentiu maior, mais forte, mais rígida, mais verdadeira que o próprio concreto no qual se enconstava.



" they build buildings oh they build buildings oh
they build buildings so tall these days ."