"Eu não sou uma sonhadora. Só devaneio para alcançar a realidade!" C.Lispector

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Parto

A pureza da placenta foi-se por pernas abaixo no momento do parto. Rompendo-se a bolsa, rompeu-se um pacto. A inocência é cortada juntamente com o cordão umbilical. O próprio nome reflete e resume toda a ação em si: PARTO.
Partí de um local liquefeito e aconchegante, do meu espaço de pré-vida (ou de vida pré-concebida) para um meio no qual nada me fazia sentir "em casa", ou muito menos viva. Pensei ter ouvido errado quando disseram "bem-vinda ao mundo", afinal tudo que eu olhava ao redor era imundo, mudo.
O mundo não nos acolhe quando em direção a ele vamos de braços abertos, apenas nos aceita goela à baixo por não ter outra opção.
A super população supri a necessidade de se formularem outras desculpas para controle de natalidade, ou controle de vitalidade, veracidade, vivacidade, idade. Viva-a-cidade.
Tempos se passaram após essa fétida concepção, e juro que ainda não encontro razão no meio de todo esse lixo orgânico, que se recicla ciclo após ciclo, vida após vida, ano após ano.

Parto do ínicio ao fim, até me partir aos pedaços, até (re)partirem a mim.





*de mim para mim mesma - homenagem à data do meu parto,
que está chegando haha.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Inspirando, expirando, expressando, exalando, esperando... inspiração.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Mais uma vez me desespero sem ninguém saber. Mais uma vez grito tão alto a ponto de fazer estremecer as tumbas dos faraós mais antigos no mais distante e remoto deserto egípcio.
Mas esse grito é inaudível aos ouvidos humanos, é um grito de alma que só quem tem uma alma gritante consegue ouvir, ou sentir. Tenho vontade de tirar minha alma despedaçada de dentro de mim e joga-la ao ar como fogos de artifício, fazendo-a atingir a maior altura possível e ouvindo-a dar seu rugido (afinal, nem eu consegui domar minha própria alma, ela ruge porque é felina, porque não pertence a ninguém, porque é autônoma) final mais atordoante e ao mesmo tempo mais libertino. Só que serão fogos sem cores. Minha alma se acinzentou de uns tempos pra cá. Eu me acinzentei. O mundo ao meu redor perdeu as cores que eu tanto adorava apreciar diariamente, as folhas e flores que vejo já não formam a imagem colorida que formavam antes diante dos meus olhos, são mais como borrões de cores escuras sem a definição de uma cor só. Não sei o que me fez endurecer assim (ou o que fez as coisas endurecerem assim diante de minha vista já tão atordoada e tão perdida), não sei se foi o mundo em si, ou se foram os traumas familiares de minha adolescência perturbada, ou o meu esforço contínuo para não me tornar mais uma ovelha negra em meio a uma família já saturada dessas. Ou se foram os abortos ocorridos sequencialmente - físicos e emocionais.
Ou se foi a falta de uma companhia sequer. Não que eu não tivesse companhia na vida, muito pelo contrário, sempre fui cheia de amigos e amigas, namorados e namoradas, vizinhos, colegas de ônibus, de estudo, de trabalho. Sempre adorei pessoas, de qualquer estatura, qualquer cor, qualquer etnia. Nunca gostei de saber nome, ou o sexo, ou fisionomia de ninguém, gostava de saber mesmo da alma, dos pensamentos, das vontades e ideologias. Sempre amei conhecer e tentar entender o ser humano (apesar de muitas vezes não entender nem a mim mesma – chego a conclusão que isso era uma forma de me reconfortar, esquecendo de mim, do que eu poderia encontrar se enfim chegasse a me entender, me compreender, me decifrar – coisa que ninguém jamais fez). Gostava de decodificar um olhar e saber das mil intenções que se estendia de forma camuflada por dentro dele, de pegar um gesto que fosse, e analisá-lo até o último detalhe que pudesse me revelar algo implícito. E apesar de tudo isso, o que me corrói, é a falta de companhia constante. Muitas pessoas passaram pela minha vida, e com certeza não foi à toa, mas não sei porque... nenhuma perdurou, nenhuma conseguiu ser forte o suficiente para me empurrar ladeira a cima ou corajosa o suficiente para me seguir ladeira a baixo [não pense que eu exigia demais pois não exigia, exigia apenas o básico, mas ninguém tinha -ou não queria me dar- o necessário que eu procurava, ninguém olhava o mundo e tentava entendê-lo com a mesma intensidade que eu – ou então, provavelmente esqueciam-se de se preocuparem com isso, deixando sempre para o dia posterior].
Estou tão sem ninguém que chego ao ponto de ficar sem mim. Grito mais uma vez, e toda minha força se esvai.
Essa noite (como inúmeras outras) gritei tanto, que não acordei com os pássaros cantarolando em seus ninhos aconchegantes, e sim os fiz acordar – ou morrer - comigo.