"Eu não sou uma sonhadora. Só devaneio para alcançar a realidade!" C.Lispector

sábado, 27 de março de 2010

Cotidiano 1

Ele a queria tanto que chegava a alucinar. Beijava seus lábios sem ao menos tocar. Hipnotizava-se com o perfume da amada, que amando outro seguia.
Um belo dia comprou uma arma que não sabia o nome e nem como usar, mas aprendeu. Além de matar o amante de sua amada, também se matou. Nada fora do padrão, quer coisa mais bonita que morrer por amor?
Quando a mulher soube, caiu em prantos. A convivência com o amante era insuportável, suas preces foram finalmente ouvidas. Ela nunca morreria de amor, estava com medo de morrer de ódio.
Mas agora, suspirava aliviada.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Infortúnio.

Eu, homem formado, tive que me conformar.Um AVC. Simples assim, inesperadamente assim.
Eu que ergui prédios das cinzas, dei um teto e coloquei o que comer no prato de minha família, agora faço arremessos de pratos na parede. De que adiantou? Hoje não consigo subir as escadas desses prédios, não consigo alcançar o teto dessas casas.
Que tudo o mais caia! Se eu não consigo ficar em pé sem a ajuda de uma bengala, nada deve ficar.
Passei a vida estudando meus direitos e as leis, que hoje não me servem de nada, eu não tenho mais minhas faculdades perfeitas (sequelas existem).
Qualquer um que senta ao meu lado parece saber mais que meus 25 anos de aprendizagem e trabalho duro, hipócritas e sem escrúpulos que fazem de tudo para sair na vantagem. Na minha época tinhamos a idéia de que o caráter das pessoas valia mais que bens materiais.O tempo parece ficar mais curto a cada dia, e o que eu faço? Paraliso, como metade do meu corpo.
Pessoas que me ajudaram, que estão ao meu redor, se tornam (na maioria das vezes) tão insignificantes quanto um repórter da TV. Só servem para me lembrar da vida que eu não vivo mais, uma vida fora das paredes da minha casa que já não me prende o interesse, não me satisfaz.
Nunca entenderão a causa de toda a minha raiva... que sufoca diariamente, que me mata (e poderia matar alguém) antes de eu estar completamente morto.



(à lá meu pai.)

segunda-feira, 22 de março de 2010

Forbidden Love

Whatever.
Suas mãos são mais macias que as minhas, seus tons de esmalte são vivos, fortes... não apagados e sem graça que nem os meus. Seus perfumes mais sexys, seu cheiro mais inesquecível. Como fui me deixar levar pelo seu ar de mulher séria e segura, pelo seu andar confiante e deslumbrante no salto alto? Nunca perde a compostura, nunca eleva seu tom de voz. Seu hálito doce sempre me chama pra perto, para esse deserto sem fim que lhe compõe.
E talvez você nem saiba que meu olhar esconde esse desejo mais que proibido... pecador. Ou talvez você saiba, mas não quer se arriscar pelo meu querer, para me ter... sabe que não terá futuro. A perdição seria única, não haveria bis. Acontecimentos assim são raros, pessoas como você também. Que estranha atração, apenas um encontro num elevador e você me deixou sem jeito, eu que fui formada para ter uma fala impecável, eu que sou tão articulada fiquei com a língua presa.
No meu pensamento um encontro de pura sensualidade vai se tecendo, saltos altos são jogados de lado e daríamos vivência ao verbo ser, apenas seríamos... sem nenhuma preocupação, sem nenhuma cobrança alheia, sem mais nem menos.

Apenas seríamos, duplamente mulheres... e por inteiro.