"Eu não sou uma sonhadora. Só devaneio para alcançar a realidade!" C.Lispector

domingo, 17 de abril de 2011

Um sino badalou,

um homem se dobrou

sobre seus joelhos calejados,

e ferozmente orou.


Um sino badalou

a mulher parou de trabalhar

largou o papel, caneta

e apressandamente foi louvar.


Um sino badalou

a criança parou de brincar

serrou os olhos em direção ao céu

e mudamente começou a conversar.


Um sino badalou

Tudo bem, acontece,

A moça quieta ficou

E começou sua prece.


Um sino badalou.

Ele olhou lá de cima, dentre as nuvens,

pedidos começaram a chegar.

Ele, humildemente, começou a rezar.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

À noite enxergo melhor, nem de óculos pareço precisar. Olhando de minha sacada vejo a vida passar em várias faces, fáceis. A noite me acalma, o ar que respiro me embriaga de prazer e realidades fraturadas, meus pulmões parecem se expandir para o mundo todo, e alargar seus horizontes. Olho as luzes, os prédios que não dormem; os carros, cada qual carregando pesadas bagagens de vida (ou pseudo-vidas); vontades, desejos que a noite transforma em realidade. Vejo a moça de saia, a passos largos andar sozinha, o medo a faz acelerar o ritmo. Ouço gritos de felicidades ao longo, ou de tristeza. Pneus cantando o que ninguém consegue ouvir, cantam o desejo de fugir. Conversas entrecortadas pelos sons de buzinas e motores. E ninguém me vê, nenhum olhar acusador, nada que me impeça de ver a vida claramente, sem as máscaras que insistimos em usar, diariamente. O que deixamos passar de dia, a noite nos revela. O ar noturno revive os pulmões negros e podres dos fumantes insaciáveis.
Ah noite, em você posso ser quem eu sempre quis, posso entender os uivos que me chamam para não sei onde. E vou seguindo-os, ao longe. Seguindo-os até encontrar o segredo da vida.
Dizem que um dia você encontra aquela pessoa, a tal tampa da panela. Mas ninguém diz que quando a moldura da panela sai errado, e fica deformada (para sempre), as chances de se encontrar uma tampa que encaixe cai drasticamente. O mundo é tão grande meu amor, tão cheio de ferro, que enferruja, que dá tétano, deteriora. Minha essência é essa, vazia, machucada, doente. O ferro que fortalece, a mim é vão. Tenho mãos calejadas sem nunca trabalhar, seria o suor e esforço de outras vidas? Não sei, nem quero saber. Se pouco entendo dessa vida nada mudaria conhecer outras, só me perderia mais nessa inebriante caminhada, cambaleante. Sigo quase caindo, quase rindo, e de quase em quase acabo sem nada. E o nada, nada mais é que o resto, e o resto é resultado de um nexo. Nexo causal, entre minhas atitudes mórbidas e o resultado nulo. Estava na cara, qualquer um que olhasse saberia que ela nasceu pra ser sozinha. Ela, que eu olho no espelho toda manhã. Eu estou quebrada, e quebro esse espelho que reflete a realidade mais sufocante do que qualquer corda amarrada ao pescoço. De nada adianta, ter tanto pra compartilhar sem ter com quem. O mundo é tão grande, e mesmo assim, eu consigo a proeza de ser só.