"Eu não sou uma sonhadora. Só devaneio para alcançar a realidade!" C.Lispector

sábado, 7 de janeiro de 2012

Reticências

Angústias vomitadas em um vaso sanitário de um lugar qualquer. O som ensurdece meus ouvidos, e mesmo assim ouço você sussurrar meu nome. Sinto o calor que sai da lareira que acendemos no último feriado. Pego mais um copo de vodka e jogo meu corpo na pista. Não consigo acompanhar o ritmo da música, pois o ritmo da sua pulsação não sai de mim.
Sinto salivas estranhas que meu corpo rejeita. Meus lábios não reconhecem os seus, e juro que tentei. Como tenta um atleta em sua reta final.
Saio do ambiente claustrofóbico e o Sol já está alto, o mesmo Sol que você adora sentir batendo em seu rosto - eu que sempre preferi dias nublados. O tempo nunca nos foi favorável, e o clima que nos envolvia se dissipou como uma nuvem num vendaval.
Mas você sempre esteve.
Em cada rosto parado sob a fumaça cinematográfica da balada, em cada ônibus que eu peguei - me cobrando o que nunca pude pagar. Mas agora pago, pago como paga um fiel seus pecados em penitência.
...

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

"Tempo tempo mano velho... "

O tempo se tornou nada mais que uma forma de controle, que nós - seres pensantes - pensamos (erroneamente) que detemos. E dói, como dói vê-lo passar.
Temos hora certa para trabalhar, pra comer, se exercitar, dizem até que tem hora pra ser feliz. Logo, não é razoável ser feliz no momento e da maneira que você quiser. Isso estragaria a ordem e geraria o caos. E em uma terra de ordem e progresso, a desordem seria o fim menos desejado.
Há tempo (ou não), que nos restringe, nos limita; apenas porque a cada momento deixamos o momento passar, pois estamos muito ocupados calculando meticulosamente os minutos, segundos, milésimos de segundos. Falta meia hora para o expediente acabar, quanta coisa; falta meia hora pro seu ônibus partir, pouca coisa. Já diziam os sábios que o tempo é relativo, e é. O tempo é relativamente desproporcional a nossa estupidez de contá-lo.
O tempo nos regra e temos que obedecê-lo, caso contrário... Caso contrário o quê?! Falando em tempo, faz tempo que não sonho, que não sinto, que não amo. O tempo passa, nós passamos. E a hora é agora, é tempo de desapegar.
A solução prara tudo é mais do que simples: temos que nos desapegar. Quando realizarmos que nada do que pensamos ser nosso, de fato nos pertence, poderemos enfim nos tornar melhores enquanto seres humanos. Não haverá fúteis competições para ver quem é melhor que quem, pois esse "ser melhor" nada mais é que ter mais coisas ou assumir certos cargos. Fica frio camarada, seu carro vai quebrar, se deteriorar; seu emprego será eventualmente de outra pessoa, ou irá se desvalorizar.
Então valorize
a vida
e o tempo.
Ou não, assim você esquece - e vive verdadeiramente.
Desapegar das pessoas também não é de todo ruim, essa falsa ideia de propriedade que criamos e colocamos sobre nossos iguais, só nos faz cair num terreno movediço que nos suga pra dentro de nós mesmos, de onde não conseguiremos mais sair. Então pare de cantar aos quatro ventos que "ninguém é de ninguém" e que você está na pista pra negócio. Você não está, você apenas quer prender quem deseja e ser livre quando der na telha. Vejo gente reivindicando igualdade de gênero, sexo, etnia, oportunidades de trabalho, quando não tratam por igual nem mesmo as pessoas ao seu redor, suas e seus colegas de luta. Antes de levantar qualquer bandeira, temos que nos assumir enquanto seres humanos, e assumir que a outra/qualquer pessoa também o é. E o que é "ser" além de um verbo? O que é "humano" além de um adjetivo? Ser é algo que não passa, diferente de estar - é a essência que carregamos (e na maioria das vezes não temos a menor ideia do que isso seja). Humano é algo que pensa, e sente, e possui aquele tal polegar opositor que não se opõe a nada. É pensar - diferente de refletir - sempre (mas às vezes esse ato de pensar vem no momento posterior ao de falar, aí já viu né?!), sentir sempre e sorrir nem sempre.
O resto é resto, e está aí para ser juntado e utilizado novamente, reciclar a vida e as ideias é o primeiro passo para a conservação do mundo - seja do seu mundinho ou do nosso mundão (e o diminutivo aqui não é para inferiorizar). Não espere uma virada de ano para fazer resoluções, para utilizar a palavra mudança tão repetidamente. Somos mutantes (não que nem na novela), somos inconstantes, extremamente variáveis. Contradizendo todas as leis da física, somos massa sem peso algum (se sós).
Queria escrever mais, mas não da tempo. Quem sabe o ano que vem, as palavras me venham com mais frequência - elas sumiram tantas vezes. O tempo está fechando no céu, que escurece. Mas dá tempo, tem que dar. Sempre é tempo
de sonhar.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Mais-valia um pão na mão
que dois na padaria,
mas não valia
de nada meu suor sob o sol -
que paga o carro importado
do patrão.
Prato vazio,
enquanto a fábrica está cheia
de lucro e exploração.
Mais valia um não,
um cão amigo
e um colchão.
Mas de nada valia
quase morrer
para de cédulas sujas
o bolso de muitos
poucos
encher.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Os sinos se dobram em uma
melo
dia
gostosa para os ouvidos de quem a escuta.
Porém,
os carros com suas buzinas e motores
e gente gritando ao trânsito
abafam esse canto de anjos.
Afobados seguem para suas
rotinas,
retinas não mais se encontram.
Pupilas dilatam-se à luz do semáforo
que ofusca a luz do Sol.
Sal,
salário
não salgado para o trabalhador diário.
Mas eu ouvi,
mais alto que a sinfonia do tráfego infernal
a verdadeira música.
Quem diria?
É dia.

domingo, 16 de outubro de 2011

Tudo que existe é milimetricamente perfeito, perfeito para me foder. Seus seios, meu palavreado sem freios, tudo colabora com o coveiro que trabalha no aprofundamento de meu antro desde o momento - precioso e único - que lhe conheci.
Vadia da noite, do dia, da madrugada, me embaralha mais a vista que dias nebulosos, me embriaga mais que qualquer whisky à la cowboy. Enjoy. Propagandas se propagam pelo mundo mais rápido que parcelamentos das Casas Bahia. Mal nascemos e já procuramos mil desculpas para morrer.
E de tudo se morre. Morre-se de tédio, tétano, ciúme, encomenda, e às vezes, muito às vezes, até mesmo de morte morrida. Dessas que todo mundo deseja ardentemente, encontrar a luz dormindo e sonhando com dias nos quais a dívida do carro estivesse quitada, ou então que sua casa fosse finalmente própria.
E por fim, morre-se de desgosto - tem gente que diz que é morrer por ou de amor. Acaba sendo tudo a mesma coisa. Não gostei de lhe ver nos braços de outro e morri esticando os meus, na vã tentativa de lhe reter. Mas sabe o que é verdadeiramente pior nesses tipos de morte? É que amanhã você vive outra vez. Ah, essa eterna ressurreição sadista.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Castraram-lhe a alma. Ele não sabia mais o que era amar.

sábado, 16 de julho de 2011

chá de toda tarde

Um caminhão vindo em sua direção com o farol alto lhe cegando. Essa é a sensação de acordar toda manhã: não saber ao certo qual rumo tomar, que velocidade ir, se vai ou não estar vivo durante os segundos posteriores. A estrada então, é melhor que ela escolha você. Seus critérios já não são confiáveis. Quebrou diversas vezes a cara no muro. E quebrará novamente. É a lei do universo, de Murphy, da puta que pariu. Você não controla quantas vezes e de quais maneiras vai se ferrar, mas vai. É uma verdade inviolável, um dogma preparando você para a fogueira inquisicionista. Para o julgamento dos (in)justos. É uma imensa heresia continuar vivo por fora e morto por dentro. Mas você não frequentou a catequese.
Tome tento, tenha modos. Quem mandou não usar o talher adequado? Agora vai ficar de castigo. E irão lhe punir. Com palavras dóceis que doerão mais que qualquer outra de baixo calão. Calarão você. Amordaçarão sua mente para que ela não grite suas idéias impuras. Mas deixe estar, agir como bom cordeirinho é o primeiro passo para fazer com que a ovelha negra dentro de si fique segura. Não era pra ser assim, tinha que ser sincero. Mas o mundo não merece a sinceridade, não tão já. Não estão preparados para uma mudança tão drástica em suas rotinas tão bem calculadas e vontades sempre prontamente saciadas. Estão satisfeitos com a cegueira lhes imposta, ou melhor, proposta. Aceitaram de bom grado a camuflagem das verdades nos meios de convivência. No fundo adoram fazer o social que dizem não aguentar mais. Hipocrisia no nome da comanda, por favor. Bajulação é o melhor presente a se dar aos anfitriões, aos filhos destes, aos convidados e ainda melhor é dar aos que assinam os cheques - nessa festa de insultos que visa inferiorizar quem é superior na alma e nos princípios.
O mundo nada mais é do que uma dama inglesa tomando chá toda tarde, como convenção social para mostrar a todos que está extremamente bem. Apesar do caos que a rodeia, ela nunca perde a pose e não olha ao lado quando passa um indigente. Às vezes até olha, mas vê apenas farrapos, e não o alguém por baixo deles.
E o chá que sobra no fundo da chícara, continua olhando e rindo para a cara das damas aristocratas.