"Eu vou me acumulando, me acumulando, me acumulando - até que não caibo em mim e estouro em palavras." - Clarice Lispector.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Ela desejava conhecer o Mar Morto, queria comprovar de qualquer maneira que havia algo mais morto que sua própria carne em estado de putrefação bem camuflada. Assim como aquelas águas solitárias e impenetráveis ela era, também carregava o excesso de sal, que saia pelos seus olhos transbordantes de tristezas incompreendidas. Nada penetrava sua alma, e tudo que já havia nela parecia morrer cada dia mais.
Sem ao menos chegar à superfície para respirar, ela se afogava dentro de si, e assim como a vegetação dos lugares secos e áridos, ela vivia se entortando toda, tentando ser acolhida pela terra.
Ela tinha aquele olhar de esfinge calada, de quem havia sofrido por inúmeras vidas, que ninguém compreendia, ninguém decifrava. As vezes ela mesma chegava a se surpreender, descobrindo e redescobrindo segredos próprios, se perdia no labirinto que a compunha. Olhos que guardam segredos que nem ela sabe, que viram muito do que ela ainda não viu. A janela de sua alma estava explicitando que era mais antiga que o corpo que a protegia.
Os pensamentos que ela possuía pertenciam a outro plano, era mente de quem já viveu muitos anos além da imaginação, mente de espirito velho...



Então, tristemente chegou a uma conclusão: a única coisa capaz de se parecer um pouco com ela era um mar...

um mar morto.


[e que, ironicamente, iria matá-la]

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Larguei o camarote, cansei de assistir aos atos de auto-mutilação, de masoquismo de alma sem nenhuma atitude tomar. Há muito, os teatros só tinham em cartaz essa tragédia tão ridícula e tão comum. A melhor coisa que fiz foi abandonar o binóculo e o assento privilegiado, não vi mais a tentativa inútil dos atores de se camuflarem atrás de máscaras pobres, tentando esconder suas verdadeiras intenções, suas verdadeiras emoções. Por que todos nesse mundo insistem em ensaiar uma peça além de realmente encená-la num ato único chamado vida?
Subi ao palco e me mostrei mais limpa e crua que qualquer um já havia se mostrado. Meus arranhões à flor da pele deixei expostos, minhas feridas mal cuidadas deixei sangrar à olho nu, minhas marcas de passado (e pecados) deixei analisarem.
E esperei, esperei os tomates podres voarem em minha direção, esperei as vaias encherem meus ouvidos de decepção... Esperei me apedrejarem, me chicotearem, me colocarem presa numa cruz. Fechei os olhos e nada mais fiz do que esperar a punição por ser quem eu sou (já que diariamente me reupidiavam)
Quando os abri, vi que ninguém falava, ninguém sorria. Todos estavam me encarando e desejando a minha coragem, mas mesmo assim ninguém se postou ao meu redor.
Foram saindo um a um...
Como se a verdade machucasse a vista!
A verdade em cólera, transbordante. Não existia certo ou errado.
Apenas a sinceridade do meu ser pairando e enchendo todo o ar, e ninguém aguentou olhar.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Parto

A pureza da placenta foi-se por pernas abaixo no momento do parto. Rompendo-se a bolsa, rompeu-se um pacto. A inocência é cortada juntamente com o cordão umbilical. O próprio nome reflete e resume toda a ação em si: PARTO.
Partí de um local liquefeito e aconchegante, do meu espaço de pré-vida (ou de vida pré-concebida) para um meio no qual nada me fazia sentir "em casa", ou muito menos viva. Pensei ter ouvido errado quando disseram "bem-vinda ao mundo", afinal tudo que eu olhava ao redor era imundo, mudo.
O mundo não nos acolhe quando em direção a ele vamos de braços abertos, apenas nos aceita goela à baixo por não ter outra opção.
A super população supri a necessidade de se formularem outras desculpas para controle de natalidade, ou controle de vitalidade, veracidade, vivacidade, idade. Viva-a-cidade.
Tempos se passaram após essa fétida concepção, e juro que ainda não encontro razão no meio de todo esse lixo orgânico, que se recicla ciclo após ciclo, vida após vida, ano após ano.

Parto do ínicio ao fim, até me partir aos pedaços, até (re)partirem a mim.





*de mim para mim mesma - homenagem à data do meu parto,
que está chegando haha.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Inspirando, expirando, expressando, exalando, esperando... inspiração.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Mais uma vez me desespero sem ninguém saber. Mais uma vez grito tão alto a ponto de fazer estremecer as tumbas dos faraós mais antigos no mais distante e remoto deserto egípcio.
Mas esse grito é inaudível aos ouvidos humanos, é um grito de alma que só quem tem uma alma gritante consegue ouvir, ou sentir. Tenho vontade de tirar minha alma despedaçada de dentro de mim e joga-la ao ar como fogos de artifício, fazendo-a atingir a maior altura possível e ouvindo-a dar seu rugido (afinal, nem eu consegui domar minha própria alma, ela ruge porque é felina, porque não pertence a ninguém, porque é autônoma) final mais atordoante e ao mesmo tempo mais libertino. Só que serão fogos sem cores. Minha alma se acinzentou de uns tempos pra cá. Eu me acinzentei. O mundo ao meu redor perdeu as cores que eu tanto adorava apreciar diariamente, as folhas e flores que vejo já não formam a imagem colorida que formavam antes diante dos meus olhos, são mais como borrões de cores escuras sem a definição de uma cor só. Não sei o que me fez endurecer assim (ou o que fez as coisas endurecerem assim diante de minha vista já tão atordoada e tão perdida), não sei se foi o mundo em si, ou se foram os traumas familiares de minha adolescência perturbada, ou o meu esforço contínuo para não me tornar mais uma ovelha negra em meio a uma família já saturada dessas. Ou se foram os abortos ocorridos sequencialmente - físicos e emocionais.
Ou se foi a falta de uma companhia sequer. Não que eu não tivesse companhia na vida, muito pelo contrário, sempre fui cheia de amigos e amigas, namorados e namoradas, vizinhos, colegas de ônibus, de estudo, de trabalho. Sempre adorei pessoas, de qualquer estatura, qualquer cor, qualquer etnia. Nunca gostei de saber nome, ou o sexo, ou fisionomia de ninguém, gostava de saber mesmo da alma, dos pensamentos, das vontades e ideologias. Sempre amei conhecer e tentar entender o ser humano (apesar de muitas vezes não entender nem a mim mesma – chego a conclusão que isso era uma forma de me reconfortar, esquecendo de mim, do que eu poderia encontrar se enfim chegasse a me entender, me compreender, me decifrar – coisa que ninguém jamais fez). Gostava de decodificar um olhar e saber das mil intenções que se estendia de forma camuflada por dentro dele, de pegar um gesto que fosse, e analisá-lo até o último detalhe que pudesse me revelar algo implícito. E apesar de tudo isso, o que me corrói, é a falta de companhia constante. Muitas pessoas passaram pela minha vida, e com certeza não foi à toa, mas não sei porque... nenhuma perdurou, nenhuma conseguiu ser forte o suficiente para me empurrar ladeira a cima ou corajosa o suficiente para me seguir ladeira a baixo [não pense que eu exigia demais pois não exigia, exigia apenas o básico, mas ninguém tinha -ou não queria me dar- o necessário que eu procurava, ninguém olhava o mundo e tentava entendê-lo com a mesma intensidade que eu – ou então, provavelmente esqueciam-se de se preocuparem com isso, deixando sempre para o dia posterior].
Estou tão sem ninguém que chego ao ponto de ficar sem mim. Grito mais uma vez, e toda minha força se esvai.
Essa noite (como inúmeras outras) gritei tanto, que não acordei com os pássaros cantarolando em seus ninhos aconchegantes, e sim os fiz acordar – ou morrer - comigo.

sábado, 13 de junho de 2009

Pára, não vem com essa mão na minha, não traga esse cheiro tão familiar para o interior de minhas narinas, que por um lapso involuntário e inexplicável é transportado direto ao meu coração, fazendo-o sufocar nesse insuportável perfume de tarde nublada que eu tanto amo.
Me solta, não me puxe de volta para a cama, para os sonhos que ficaram perdidos no lençol.
Se tudo é mentira, se amanhã a cama vai estar arrumada e vazia, não me olhe, sua feição me causa azia. Só a noite à meia luz que consegui encará-la, que ela não fez diferença alguma ao interior do meu ser.
Cansa me doar inteiramente, e não receber em troca nem ao menos uma esmola por boa ação ter feito, esgota. Nenhuma recompensa a curto prazo [nem a longo, a longo prazo é tudo mentira, tudo se desfaz e se perde no meio do percurso] e eu me perco diariamente nos cursos das minhas idéias voadoras regadas pelos rios dos meus sonhos.
elas desaguam num mar morto de vontades, salobro de suor, pobre de bondades.
e eu desaguo junto, querendo criar brânquias para nunca mais ter que voltar à superfície.



afogo-me no mar. no mar que criei para você se banhar.
banho-me no mar. no mar que criei para lhe afogar.

segunda-feira, 1 de junho de 2009



Ela olhava de cima do terraço do mais alto prédio que conseguiu achar, e de lá percebeu o quão pequeno é o ser humano. Que humilhante, subir tão alto pra ver a enorme pequenez do seu próprio ser. A partir desse momento ela sentiu todos aqueles sentimentos de revolta que sentimos quando percebemos que não fazemos a menor diferença diante da imensidão do mundo, queria se fazer ser notada, ser vista e não somente olhada.
Mas chovia...
e a chuva cegava tudo aos olhos alheios. Parecia que só os dela enxergavam mais nitidamente em dias assim. Dias frios e chuvosos, nos quais ela conseguia ver a própria alma refletida nas gotas cristalinas à cair. Quem sabe em outra vida tenha sido chuva [ou então tormenta, tempestade.] Ela começou a abrir os braços o máximo que podia, e mais uma vez percebeu que não era nada, que limitação somos nós. Lembrou das pessoas que conheceu, da família com a qual viveu, das garotas e garotos que namorou, e pensou se faria diferença ou se teria acrescentado algo na vida de algum deles. Pois ela sabia que eles estavam ali junto dela, todos eles ,formando cada pedacinho do seu ser. Como ela costumava dizer: 'minha alma é um retalho de pessoas'.
E ela queria sentir o mundo, foi para a beirada do telhado... ali não havia nada prendendo-a, nenhuma rede de proteção ou barras. Quem sabe sentiria se se jogasse? Se desafiasse as leis da gravidade?
Ela respirou aquele ar frio e gélido, sentindo as gotas molharem seu rosto tão insignificante (ela pensou), tão sozinha (ela se viu.)
Esticou a perna, deu uma rodopiada de bailarina [movimento que trazia da infância, das inúmeras aulas de ballet que havia tido]
Mas deu meia volta e se sentou...
Sabia que era pequena, mas ali, depois de sentir aquele turbilhão de sentimentos...
Ela se sentiu maior, mais forte, mais rígida, mais verdadeira que o próprio concreto no qual se enconstava.



" they build buildings oh they build buildings oh
they build buildings so tall these days ."