"Eu não sou uma sonhadora. Só devaneio para alcançar a realidade!" C.Lispector

sábado, 6 de abril de 2013


avistei tantos olhos,
cruzei tantas ruas,
que perdi os lamurios
das avenidas cruas.
cruzei tantos brilhos,
nos postes,
nos globos oculares,
que me perdi ao parar
pra sentir seus olhares.
não era de ressaca,
nem quarentaetrez,
era uma encruzilhada,
uma galinha preta na estrada,
um jogo de xadrez
que nunca terminei.
farol alto na neblina,
cavalo manco na surdina,
zumbido oco na madrugada,
válvula de escape - que me invade.
uma reza em cruz.

seu olhar,
nó de luz -
- que cegava.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Samuel tem nome de anjo.
mas ninguém reza pra ele, ou por ele.
Vive ali no viaduto do Cury
(pertinho do mercadão)
e nunca teve grana pra comprar pão. 
Dorme-come papelão.
Uma latinha de alumínio, vez por outra,
faz acender o vício que não larga.
Bem que pede a deus todo dia e noite;
meu-deusinho-virgi-santíssima-espiritinho-santo,
roga até a soldado desaparecido.
Pede pede pede,
suplica suplica
e implora.
Mas quem atende suas preces,

é a esquina.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

"um samba para o infinito"

queria que me lessem as palavras e a alma, mas não compreendem que sou pobre na tradução e nos amores. tenho o coração oco, os escritos rabiscados e pouco gosto pelas palavras rebuscadas. gosto é do samba que faz o coração balançar e o pé doer - ou o contrário. alguém me avisou pra pisar nesse chão devagarinho e eu piso de mansinho com a agonia do canto do trabalhador ecoando em meus ouvidos. esbarro no moço e saio de fininho. a cerveja me molha os lábios que cantarolam uma batucada velha do trem que sai às onze e que eu nunca embarquei. eu queria era ir de vez. só escrevo com pontos e vírgulas e travessões e as notas já não dançam mais sobre as letras. sempre dancei sozinha, sambei na minha. já rasguei a saia enquanto rodava junto com a cabeça e a vodka e não consigo parar quando começo. sou mais perdida no rumo que na vida - ou ao contrário - e as rosas não falam, cartola me diz baixinho,  ele me toca e ninguém mais. mas deixe-me ir preciso andar, sorrir pra não chorar; e nem vou parar de cantar o que entoa esse peito vazio e essa alma deserta. que morre de sede aos baldes.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013


retornar ao antigo quadro
pregado na parede da memória:
cotidiano.
roda e não roda,
gira sem sair do lugar:
tédio,
combustão de mesmices.

preferia as criancices.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012


não sei mais fazer poema
assim contado,
metrificado,
com rimas ricas.

não sei mais separar as dores
em linhas,
em cores,
sou pobre de amores - e ortografia.

embaralho os acentos e traços e pontos e vírgulas
já nem grito -
tampo os ouvidos
com medo da sonoridade.

não sei mais como se escreve
nem como se sente
as palavras escorrendo tão puras
embaralhando vagarosamente
a mente
da gente.

domingo, 25 de novembro de 2012


talvez seus olhos diziam
mais que seus lábios.
talvez sua boca me comesse
mais que seu falo.
falo sério,
falo pouco.
gemo em seu ouvido
um gemido louco.
gozo em sua boca
um gozo rouco.
talvez sua mão me molhasse mais que sua saliva.
salve-se quem puder
coma-me quem eu quiser.
mas pingar a alma
só você fazia,

e olha que chovia.

sábado, 10 de novembro de 2012


O Sol é pra todos.
Há as uns que já nascem da cor
que muitos tentam ficar -
deitados de frente pro mar
sentindo a areia lhes entrar pelo rabo -
não vivem o que aqueles tem de engolir diariamente.
Disseram que é a cor do pecado,
disseram que é a cor do escravo
fazendo calar a voz que queimava
por dentro
como a brasa nas costas dos antepassados.
O Sol é pra todos,
mas a pele que arde,
é sempre,
a dos outros.

domingo, 28 de outubro de 2012

o branco do olho. o negro da pele. o amarelo dos dentes. a sujeira dos outros empreguina-se, nele. a limpeza dele sujando a rua. o guarda, o cacetete, a correria. mais uma vez encontrar outro lugar pra dormir. viaduto? praça? de baixo de cavalete? canivete caiu. polícia mal olhou e já viu: ele + moça vindo + canivete no chão = pega ladrão! é bandido, é maldito, é morto-vivo! viva!, ganhou um prato de comida e um sorriso em um dos dias. uma vida não, nem joga na loteria. sorte só da má. pouco se movia. preso pelo calcanhar cascudo, escuro, sem sensibilidade (o Estado). o estado de necessidade, um pão do supermercado, supérfulo. mas tem que trabalhar pra isso! não trabalha, batalha comendo caroço e roendo osso, viu seu moço?! falta rosto e sobra desgosto. até gostaria do sol, se nascesse para ele. escureceu. papelão, trapos, cacos, pedaços. fecha os olhos. castanhos. o cinza do chão. o invisível da situação o cobre. ninguém vê. ele dorme.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

"faz zumzum e mel; fiz zumzum e pronto."


a menina, quando pequena, se vestiu de abelha. gostava dos doces, das flores, e achou que podia voar. amarelinha, pretinha, gostava de cores - e de gente que se pintava de todas elas. achava lindo que as pessoas formavam um arco-íris, só faltava voar. quando mais velha, em uma festa, foi fantasiada de flor de madureira e tomou um doce pra viajar. levitou. foi tão longe que não sabia se voltaria, ou se voltava a ser criança. dançou ciranda sem ninguém ver. outro dia, outra hora, menos nova e mais perto da morte, perdeu o medo. cuidou de ter sorte - ora má, ora boa. cuidou de regar as cores e plantar os amores. os colhia e fazia um. fez um filho também, que veio como uma ferroada. foi a procura do pólen e voltava uma vez a cada três meses. ele sim voava, era piloto. sabia não, o cabelo caia, os seios também - como ainda pensava em subir se tudo descia? lembrava quando desceu a regra, virou mocinha e renegou o título. ovelha negra, não. abelha preta, preta, pretinha, e amarela. as vezes multicolor. mas sempre, queria voar. não quero ser mocinha, quero ser abelhinha, mamãe. virou rainha da própria vida, largou a pia e a menina. abelhou-se, nunca precisou de zangão, zangou-se em frente ao tanque, jogou o espelho no chão.
sempre soube: essa vida de gente, dá mais não!

sábado, 22 de setembro de 2012


algumas casinhas,
bem pobrezinhas,
(não tinha teto, não tinha nada)
pegaram fogo!
é que o destino, tão palhacinho,
adora pregar peças.
este malandrinho
tem um nome tão bonitinho:
especulação imobiliária - dá até pra rimar em uma canção -
queima-se uma área
de tantos
só pela diversão
de poucos
que se dizem doutos.
querem apenas ver a combustão
transformar a feia fumaça
em lindos papeizinhos,
bem verdinhos,
dentro de seus próprios bolsos.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012


quando te quero,
manero.
quando não te vejo,
invento.
quando te sou,
reviro
e
vento.

quando te olho
me molho
por fora,
sonhando por dentro.

terça-feira, 11 de setembro de 2012


os olhos marejados. marujos que ali naufragaram, pediram socorro e se mataram.
um olhar apenas.
um pouco 43, um tanto de ressaca - do mar de pinga que mergulhou de cabeça, ontem no bar. amanheceu na rua, ou a rua amanheceu em si. tanto faz, o que importa é que a merda do Sol estava batendo em seu rosto lhe fazendo querer esconder os olhos. os mesmos olhos de sempre. não que fossem olhá-los, e aquelas olheiras; talvez olhassem, e desviassem - como sempre fazem com mendigos, por medo de pegarem, no contato indesejado, um pouco de humanidade.
claridade.
jurava que o marejado era da luz ofuscante que cortava as nuvens sem ninguém pedir, e era. manejou a vida toda pra olhar para os lados antes de atravessar, como se atravessar fosse um ritual. atravessou a vida toda, ritualisticamente, e não chegou a lugar algum.
atravessar era uma linha imaginária. o carro, que atravessou seu corpo, era real.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012


pior que dor de dente
é não ter dente pra doer
ou mastigar.
porque comer,
é outra coisa.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012


Não se sabe ao certo como aconteceu, sabe-se que Maria não era mulher de andar à noite sozinha, na verdade, nem acompanhada. E olha, vou lhe dizer o porquê:  a noite já era, por si só, sua mais frequente e melhor companhia. Maria a namorava pela janela, seu coração baria tão forque quando se dava conta da imensidão e da vastidão infinita contidas no breu noturno, que pensara estar apaixonada.
Seu vizinho Mané, também pensou estar apaixonado. Olhava da varanda todo dia Maria, e seu coração batia tão forte quanto sua mão batia a sagrada punheta diária. Pararia com a mão, mas nunca largaria mão da musa da janela. E que tanto fazia na janela se não fumava, não ia para a gandaia, nem ao menos olhava em direção à Lua? Mané se descabelava, subia pelas paredes, descia as escadas às pressas para encontrar com ela quando a via saindo. Mas nunca conseguia olhar em seus olhos negros como a noite adorada. Para ele, era dia demais.
Maria não se contentava, descontrolada, querendo a noite mais que a cama, saiu para dançar com sua dama favorita. Uma vez uma colega do trabalho lhe disse para não sair depois do escurecer, mas maria não entendia porque, há tempos não existia toque de recolher. Lhe dizia que o machismo tinha se tornado tão arraigado na sociedade que uma mulher não podia sair só, não podia desfrutar da rua e da vida como bem entendesse. Mas a vontade de ser livre foi maior, cansou de só ver o mundo pela janela: desceu as escadas e foi.
Sentindo a brisa suave batendo em seus cabelos ensebados por falta de banho, o cheiro maravilhoso da noite de verão adentrando suas narinas, ela chegou a conclusão que nunca se sentiu tão bem, tão humana, tão feliz, tão leve. Até que sentiu uma mão adentrar seu vestido. Lhe amassar na parede, violentar sua simples vontade de anoitecer.
Maria anoiteceu, mas não da forma que queria: obscureceu por dentro, o coração apodreceu e contaminou a carne. Agora, a noite lhe causava medo, asco, ânsia.
Dormia de luz acesa
e já não olhava pela janela.
Não se sabe ao certo como aconteceu, sabe-se que Maria nunca mais amanheceu.

quinta-feira, 19 de julho de 2012


você me comia melhor que o fábio
não fazia oral melhor que a vânia,
mas não importa, porque era você
que lia meus poemas de fundo de gaveta, falava que estavam um lixo,
e os guardava achando que eu não ia perceber.
você que me mandava tomar no cu sem remorso e acento algum
e levantava sem dar bom dia,
saia sem falar tchau.
sabia que nos veríamos novamente,
depois de ver outras pernas ,
outros olhos,
outras bocas,
sabia que a minha porta estaria sempre aberta
pra quando quisesse entrar
com sua cara lavada
cheirando a peroba da boa;
quando quisesse um chá,
um beck,
um vinho barato comprado na esquina;
ou se quisesse ouvir bethânia
ler neruda
e me ver babando na clarice.
você sempre vinha,

até que resolvi trocar a fechadura.

domingo, 8 de julho de 2012


seu o-dor me alcançou,
seu ar-dor
me fez suar frio
de tanto querer
me machucar em seu espinho,
rasgar até a jugular
só pra sentir algo em carne viva,
só pra lhe ter em meu paladar;
ouvidos;
em minhas narinas
bem de leve,
estilo floral,
que me lembrava os dias no campo
cavalgando à luz do pôr-do-sol;
os dias na cama
cavalgando à luz entre-cortada
das cortinas que fechávamos,
dos olhos que serrávamos
para sentir
torpor,
êxtase
e tentar fazer sexo
onde só havia amor.

sábado, 16 de junho de 2012



não sei se sinto,
se minto,
se não sinto nada
ou sinto muito.
não sei se quero,
se pondero,
se me entrego
ou arrego -
pois não queria
mais que pouco.
te gostaria
rouco e
um tanto louco.
desejava nadica-de-nada,
de sua boca toda,
que diz meia-verdades
e nunca mentiras;
de seus lábios que nunca silenciam
apenas os m(eus)
- faz calar vários outros.
e nem te quero meu!
te quero agora,
depois fodeu.

domingo, 3 de junho de 2012


João nasceu menino,
se descobriu mulher
e debutou aos 29.
Comia José
que declamava poesia
e amava
Teté, cujo vício era café
e virou cafetina.
Pegava meninas,
as levava pra casa
e criava como filhas -
que encontravam certos pais
enquanto deslizavam no pau
lustroso do capital -
disfarçado de erotismo (liberdade corporal)
era, na verdade,
apenas turismo sexual.

Até que chegou um dia
no qual a casa dançante fechou suas portas;
as moças as pernas;
os homens as carteiras
e o governo suas fábricas -
que produziam mulheres para
se vender ao estrangeiro
- mercadorias  num cargueiro!
E Joana, não mais João,
fechava os olhos de gozo
ao passar seu batom
que guardava desde criança.
Ainda restava um certo gostinho

de esperança.

sábado, 2 de junho de 2012

O corpo dói e o coração nem sente.
O corpo sente e o coração já não dói.
É tato,
onde a vida se inicia;
a viagem corporal anuncia
o fim da solidão a dois.

sábado, 26 de maio de 2012



Seu samba me bamba.
Perco a pose e
rodo a saia

pra espantar a solidão.